Monday, May 15, 2006

tradução caseira da lebre


um olhar desde o esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolta consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos


Alejandra Pizarnik


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Wednesday, May 3, 2006

tradução caseira da lebre


Há ferrugem na minha boca
a nódoa de um beijo antigo.
E os meus olhos estão a ficar vermelhos,
a minha boca é cola
e as minhas mãos são duas pedras
e o coração,
ainda lá está,
aquele lugar onde o amor morou
mas está pregado no sítio.
Mas eu não tenho pena por estas extravagancias,
de facto o sentimento é de ódio.
Porque é apenas a criança em mim a irromper
e eu continuo a conspirar em como a matar.

Outrora havia uma mulher,
cheia como um teatro da lua
e o amor gerou amor
e a criança quando espreitou,
não se odiava nessa altura.
Estranho, estranho, o que tu fazes amor.
Mas hoje eu vagueio numa casa morta,
uma cozinha congelada, um quarto
como uma câmara de gás.
A cama é uma mesa de operações
onde os meus sonhos me cortam em pedaços.

Ó amor,
o terror,
a peruca do terror,
que a tua querida e encaracolada cabeça
era, era, era, era.

Anne Sexton


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Tuesday, April 25, 2006

Another belief of mine: that everyone else my age is an adult, whereas I am merely in disguise.

Margaret Atwood

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Sunday, April 23, 2006

mais uma traduçao "caseira" da lebre

Fazer um homem

Método tradicional

Peguem em algum pó do chão. Dêem-lhe forma. Soprem-lhe nas narinas o sopro da vida. Simples mas eficaz

(por favor notem que embora os homens sejam feitos de pó, as mulheres são feitas de costelas, lembrem-se disso no vosso próximo barbecue ao estilo texano)

Devem ou não dar um umbigo ao vosso homem?
As autoridades no método tradicional discordam, mas nós gostamos de incluir um, porque achamos que dá um toque final. Usem o vosso polegar


Margaret Atwood


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Thursday, April 6, 2006

mais uma tradução caseira da lebre

Inventei uma mentira.
Não há outro dia sem ser segunda-feira.
Parecia razoável fingir
que eu conseguia mudar o dia
como um par de meias.
Para dizer a verdade
os dias são todos do mesmo tamanho
e as palavras não são grande companhia.
Se eu estivesse doente, seria uma criança,
aconchegada debaixo de cobertores, a bebericar o meu caldo.
Assim sendo,
não vale a pena apanhar ou mentir sobre os dias.
No entanto, és o único
que eu posso incomodar com este assunto.

Anne Sexton

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Monday, April 3, 2006

mais uma tradução caseira da lebre

Gajas impopulares

Todos têm a sua vez, agora é a minha. Ou pelo menos era o que nos ensinavam no jardim-escola. Não é realmente verdade. Alguns têm mais vezes que outros, e eu nunca tive uma, nem uma. Eu mal sei dizer eu, ou meu, tenho sido ela, a ela, aquela, há tanto tempo.

Nem sequer me foi dado um nome; fui sempre a irmã feia , ponham ênfase no feia. Aquela para quem as outras mães olhavam e depois desviavam o olhar abanando as cabeças suavemente. As suas vozes baixavam ou calavam-se quando eu entrava no quarto, com os meus vestidos bonitos, a minha cara inerte e carrancuda. Elas tentavam pensar em algo para dizer que redimisse a situação - bem, ela é forte - mas sabiam que era inútil. E eu também.

Acham que eu não odiava a pena delas, a sua bondade forçada? E saber que, não importava o que eu fizesse, o quão virtuosa eu era, ou trabalhadora, eu nunca seria bonita. Não como ela, aquela a quem bastava estar sentada para ser adorada. E ainda se admiram porque eu espetei alfinetes nos olhos azuis das minhas bonecas e lhes puxei o cabelo até elas ficarem carecas? A vida não é justa, porque é que eu deveria ser?

Quanto ao príncipe, acham que eu não o amei? Amei-o mais do que ela; amei-o mais que tudo. O suficiente para cortar o meu pé, o suficiente para matar. Claro que me disfarcei com muitos véus, para tomar o lugar dela no altar. Claro que a empurrei da janela para fora e puxei os lençóis para cima da cara e fingi ser ela. Quem não o faria, se estivesse no meu lugar?

Mas todo o meu amor chegou sempre a um mau fim. Sapatos a escaldar, barris cheios de pregos. É assim que se sente, amor não correspondido.

Ela também teve um filho. A mim nunca me foi permitido.

Tudo o que vocês quiseram, eu quis também.

Margaret Atwood


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obrigada at por este livro maravilhoso

Thursday, March 23, 2006

we are the famooooous five

A ilha Kirrin

Lia-os depois da viagem à cidade
sobre a cama, sobretudo em Junho e Julho
fechada a persiana que deixava filtrar
cheiro a damascos e pintura quente
e uma luz laminada verde escura
sobre a bicicleta e os páramos
sobre as mochilas, as quintas,
o pequeno almoço inglês, a ilha da Zé:
história fabulosa de uma infância
a ponto de se perder, porque uma vez lidas
todas as aventuras dos cinco
supus que tinha que crescer.
“De que serve ser criança, se mais tarde, em férias
nenhum barco te leva à ilha Kirrin?”
Talvez já suspeitava que os livros
podiam ser relógio ou calendário
exacto e enigmático do corpo.

Aurora Luque
(mais uma tradução caseira da lebre)

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