Wednesday, January 18, 2006

mais uma tradução caseira da lebre



lembras-te daquele que vivia no andar de cima e expulsou a filha de casa e ouviam-se os gritos e depois atirou-lhe as bonecas para o pátio porque ela ainda tinha as suas bonecas e ali ficaram entre toda aquela porcaria e olhámos para elas porque não se mexiam e já não se ouviam os gritos até que anoiteceu e logo o porteiro as deve ter apanhado na manhã seguinte algumas sem braços

estivemos a olhar para elas a tarde toda enquanto iam perdendo forma até que escureceu e não as podíamos ver e mal acordei à meia noite pensei “já não resta ninguém para as vigiar.”


Leopoldo Panero


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Monday, January 16, 2006

tradução caseira da lebre

Neve,
abençoada neve,
cai do céu
como moscas desbotadas.
O chão já não está nu.
O chão vestiu as suas roupas.
As árvores irrompem entre lençóis
e cada ramo veste a meia de deus.

Há esperança .
Há esperança em todo lado.
Eu mordo-a.
Alguém disse uma vez:
Não mordas sem saberes
se é pão ou pedra.
O que eu mordo é todo pão.
Elevando-se, fermentado como uma nuvem.

Há esperança.
Há esperança em todo o lado
Hoje deus dá leite
e eu tenho o balde.


Anne Sexton



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Wednesday, January 11, 2006

mais uma tradução caseira da lebre


Algumas mulheres casam-se com casas.
É outro tipo de pele, tem um coração,
uma boca, um fígado e movimento de entranhas.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo,
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas.
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante.

Anne Sexton


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Saturday, January 7, 2006

mais uma tradução caseira da lebre

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos

Miriam Reyes


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Monday, December 19, 2005

mais uma tradução "caseira" da lebre

Tem cuidado com as palavras,
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.

Mesmo assim, estou apaixonada pelas palavras.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.

Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as palavras não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.

Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Palavras e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.



Anne Sexton


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Monday, December 12, 2005

mais uma tradução "caseira" da lebre

O amor não é uma profissão
distinta ou não

o sexo não é cirurgia dentária
A obturação habilidosa de dores e cavidades

não és o meu médico
não és a minha cura

ninguém tem esse
poder, és apenas um companheiro/viajante

desiste desta preocupação médica,
abotoada, atenta

permite-te raiva
e permite-me a minha

que não precisa nem
da tua aprovação nem da tua surpresa

que não precisa de ser legalizada
que não é contra uma doença

mas contra ti,
o que não precisa de ser entendido

ou lavado ou cauterizado
que ao contrário precisa sim

de ser dito e dito.
Permite-me o tempo presente.


Margaret Atwood

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Monday, November 21, 2005

mais uma tradução caseira da lebre

Porque eu não podia nem ler nem falar e nas noites longas eu não conseguia desligar a lua ou contar as luzes dos carros a atravessar o tecto.

Anne Sexton



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