Thursday, September 29, 2005

outono
mais uma tradução caseira da lebre


As folhas nunca sabem
qual folha será a primeira a cair.
Será que o vento sabe?


Soseki Natsume


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Tuesday, September 27, 2005

Hoje recebi prenda linda (o “The Complete Poems ” da Anne Sexton) de um grande grande amigo
Aqui fica uma tradução “caseira” de um poema fantástico dela


Sou o único actor.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça inteira.
A peça é a minha vida,
o meu acto único.
O meu correr atrás das mãos
e nunca as apanhar
(as mãos não se vêem -
ou seja, estão nos bastidores)
Tudo o que faço em cena é correr,
correr para acompanhar
mas sem o conseguir.
-
De repente paro de correr.
(isto avança um bocado com o enredo)
Faço discursos, centenas,
todos orações, todos solilóquios.
Digo coisas absurdas como:
ovos não podem discutir com pedras,
ou, mantenham os vossos braços partidos dentro das mangas,
ou, estou aqui de pé mas a minha sombra está torta.
E tal e tal.
Muitos buhs. Muitos buhs.


Apesar disso eu continuo para as ultimas deixas:
Estar sem Deus é ser uma cobra
que quer engolir um elefante.
A cortina cai.
A assistência apressa-se a sair
foi uma má interpretação.
Porque sou o único actor
e há poucos humanos cujas vidas
farão uma peça interessante,
não concordam?

Anne Sexton



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Monday, September 5, 2005

traduçao caseira da lebre


Olha, uma borboleta. Pediste um desejo?
Não se pedem desejos a borboletas.
Claro que pedem. Pediste um?
Sim.
Não conta.


Louise Gluck


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Tuesday, August 23, 2005

tradução caseira da lebre

Deste-me a intempérie,
a leve sombra da tua mão
a passar pela minha cara.
Deste-me o frio, a distancia,
o café amargo da meia-noite
entre mesas vazias.


Julio Cortázar



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Monday, July 11, 2005

mais uma traduçao caseira da lebre

Desespero

Quem é ele?
Um carril de comboios em direcção ao inferno?
Partindo-se como um pau de mobília?
A esperança que subitamente transborda da fossa?
O amor que vai pelo cano abaixo como cuspo?
O amor que disse para sempre, para sempre
e depois te atropela como um camião?
És tu uma oração que flutua para um anúncio de rádio?
Desespero,
não gosto muito de ti.
Não ficas bem com a minha roupa e os meus cigarros.
Porque te instalas aqui
tão grande como um tanque
apontando para metade duma vida?
Não podias apenas flutuar para uma árvore
em vez de te alojares aqui nas minhas raízes,
forçando-me para fora da vida que levei
quando tem sido a minha barriga por tanto tempo?

Está bem!
Eu levo-te comigo na viagem
onde por muitos anos
os meus braços têm estado mudos


Anne Sexton


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Wednesday, June 1, 2005

esta frase da Margaret Atwood é tão minha

everyone else my age is an adult
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whereas I am merely in disguise.

Tuesday, May 31, 2005

apeteceu-me postar ou repostar uma das minhas primeiras traduçoes caseiras da minha Pizarnik (é também um dos meus poemas preferidos dela)

Infância

Hora em que a erva cresce
na memória do cavalo.
O vento pronuncia discursos ingénuos
em honra dos lilases,
e alguém entra na morte
com os olhos abertos
como Alice no país do já visto.

Alejandra Pizarnik


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