Thursday, November 23, 2006

na jaula do tempo
a adormecida olha os seus olhos sós

o vento traz-lhe
a ténue resposta das folhas


Alejandra Pizarnik


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Wednesday, November 22, 2006

tradução caseira da lebre

Mais nenhuma foto

Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes. Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico. Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas. Eu sofro da minha própria multiplicidade. Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco. Isso teria permitido uma ideia firme. Isto é ela. Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer. Ou, não bem demais: a mais.


Margaret Atwood


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Thursday, November 9, 2006

tradução caseira da lebre


Que disseram eles na primeira vez que estiveram sozinhos na mesma divisão? Que disse ele quando ela tirou o véu e ele pode ver que ela não era uma voz mas um corpo e por isso finito? Que disse ela quando ela descobriu que tinha deixado um quarto trancado por outro? Falaram de amor, naturalmente, mas isso não os manteve ocupados para sempre.


Margaret Atwood




Tuesday, October 3, 2006

mais uma tradução caseira da lebre


Era uma vez, contas, germes com cornos, viviam nos lavabos e só podiam ser derrotados por litros e litros de lixívia. Podias suicidar-te bebendo esta lixívia, e algumas mulheres fizeram-no.
Os jovens olham-te para cima, de olhos arregalados, ou se calhar olham-te para baixo: tornaram-se muito altos. Quão jovens são os jovens, nos dias de hoje? Varia. Alguns são bastante velhos. Mas ainda são muito crédulos. Porque tu estiveste lá, nesse tempo do era uma vez, e eles não.
E não apenas isso - estás a gostar disto - não havia diafragmas nus, e apenas os marinheiros e os presos tinham tatuagens. Não havia telefones, não havia vacinação, por isso não se podia chamar o médico quando se estava a morrer, de glândulas a rebentar, ou inchaços intestinais estagnados, de teias dentro da garganta, de febre cerebral, se fizesses sexo desprotegido o teu nariz caía muito mais depressa do que cai agora.
Os jovens ainda te estão a ouvir. Acreditam em ti? Será que foste sensacionalista o suficiente para eles? Esperas bem que sim.
Se fosses uma mulher casada, tudo acabava aos trinta, dizes, estavas condenada a vestir um vestido estampado e uma cinta de borracha e a sentar-te numa cadeira de baloiço no alpendre - nessa altura havia alpendres - a abanar-te com um leque, porque não havia ar condicionado, e falar sobre os teus pés chatos, a tua ciática, as tuas veias varicosas, e o ressonar do teu marido, cujas camisas tinhas que passar, todas as terças - montanhas de camisas – tudo isto metáforas para sexo medíocre.
Neste ponto há risinhos abafados. Mas tu não queres que o passado não seja tomado a sério. Custou muito. Merece respeito. Por isso, agora é a altura da artilharia pesada.
Deixem-me falar-vos de rolo de carne, dizes, baixando a voz, enquanto as caras, já pálidas, à tua volta empalidecem mais. Sim – rolo de carne, e enemas, e seringas bolbudas usadas para o que eles chamavam de “higiene feminina” - os três não estão isolados, dizes, num murmúrio emocionado.
Por esta altura os jovens fitam-te com horror fascinado, como se estivesses pronta a sacar uma das tuas pernas, revelando um coto amputado, verde e musguento. Histórias de guerra, é isso que eles querem - histórias de guerra, e menus nojentos. Querem sofrimento, querem cicatrizes. Deves falar-lhes do estufado?
Mas isso se calhar é demais. De qualquer maneira, já te excitaste o suficiente por uma noite.


Margaret Atwood


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Sunday, August 13, 2006

fechou-se o sol, fechou-se o sentido do sol, iluminou-se o sentido de fechar

Alejandra Pizarnik
(tradução caseira da lebre)


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Wednesday, July 19, 2006

mais uma tradução caseira da minha Pizarnik

Saltei de mim ao amanhecer.
Deixei o meu corpo junto à luz
e cantei a tristeza do que nasce.


Alejandra Pizarnik


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Tuesday, July 18, 2006

tradução caseira da lebre

O curso de um dia nunca é estável.
as horas experimentam com dor e prazer.
Na hora de dormir só conhecem vertigem.
Mas quanto dura um dia?
Tanto quanto o amor, dizem uns.
Mas o amor parte cedo,
antes que o amanhã e a morte comecem.
E quanto tempo dura o dia num dia?
Uns dizem para sempre.
Mas a começar quando?

No mesmo instante em que pela primeira vez
os olhos se arregalaram e não viram nada
num não tão tarde quando, pela última vez,
o tempo durou não mais que um dia,
um dia de adivinhas:
Por quanto tempo é permitido
chamar de tanto o que é tão pouco?


Laura Riding


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