Sunday, April 23, 2006

mais uma traduçao "caseira" da lebre

Fazer um homem

Método tradicional

Peguem em algum pó do chão. Dêem-lhe forma. Soprem-lhe nas narinas o sopro da vida. Simples mas eficaz

(por favor notem que embora os homens sejam feitos de pó, as mulheres são feitas de costelas, lembrem-se disso no vosso próximo barbecue ao estilo texano)

Devem ou não dar um umbigo ao vosso homem?
As autoridades no método tradicional discordam, mas nós gostamos de incluir um, porque achamos que dá um toque final. Usem o vosso polegar


Margaret Atwood


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Thursday, April 6, 2006

mais uma tradução caseira da lebre

Inventei uma mentira.
Não há outro dia sem ser segunda-feira.
Parecia razoável fingir
que eu conseguia mudar o dia
como um par de meias.
Para dizer a verdade
os dias são todos do mesmo tamanho
e as palavras não são grande companhia.
Se eu estivesse doente, seria uma criança,
aconchegada debaixo de cobertores, a bebericar o meu caldo.
Assim sendo,
não vale a pena apanhar ou mentir sobre os dias.
No entanto, és o único
que eu posso incomodar com este assunto.

Anne Sexton

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Monday, April 3, 2006

mais uma tradução caseira da lebre

Gajas impopulares

Todos têm a sua vez, agora é a minha. Ou pelo menos era o que nos ensinavam no jardim-escola. Não é realmente verdade. Alguns têm mais vezes que outros, e eu nunca tive uma, nem uma. Eu mal sei dizer eu, ou meu, tenho sido ela, a ela, aquela, há tanto tempo.

Nem sequer me foi dado um nome; fui sempre a irmã feia , ponham ênfase no feia. Aquela para quem as outras mães olhavam e depois desviavam o olhar abanando as cabeças suavemente. As suas vozes baixavam ou calavam-se quando eu entrava no quarto, com os meus vestidos bonitos, a minha cara inerte e carrancuda. Elas tentavam pensar em algo para dizer que redimisse a situação - bem, ela é forte - mas sabiam que era inútil. E eu também.

Acham que eu não odiava a pena delas, a sua bondade forçada? E saber que, não importava o que eu fizesse, o quão virtuosa eu era, ou trabalhadora, eu nunca seria bonita. Não como ela, aquela a quem bastava estar sentada para ser adorada. E ainda se admiram porque eu espetei alfinetes nos olhos azuis das minhas bonecas e lhes puxei o cabelo até elas ficarem carecas? A vida não é justa, porque é que eu deveria ser?

Quanto ao príncipe, acham que eu não o amei? Amei-o mais do que ela; amei-o mais que tudo. O suficiente para cortar o meu pé, o suficiente para matar. Claro que me disfarcei com muitos véus, para tomar o lugar dela no altar. Claro que a empurrei da janela para fora e puxei os lençóis para cima da cara e fingi ser ela. Quem não o faria, se estivesse no meu lugar?

Mas todo o meu amor chegou sempre a um mau fim. Sapatos a escaldar, barris cheios de pregos. É assim que se sente, amor não correspondido.

Ela também teve um filho. A mim nunca me foi permitido.

Tudo o que vocês quiseram, eu quis também.

Margaret Atwood


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obrigada at por este livro maravilhoso

Thursday, March 23, 2006

we are the famooooous five

A ilha Kirrin

Lia-os depois da viagem à cidade
sobre a cama, sobretudo em Junho e Julho
fechada a persiana que deixava filtrar
cheiro a damascos e pintura quente
e uma luz laminada verde escura
sobre a bicicleta e os páramos
sobre as mochilas, as quintas,
o pequeno almoço inglês, a ilha da Zé:
história fabulosa de uma infância
a ponto de se perder, porque uma vez lidas
todas as aventuras dos cinco
supus que tinha que crescer.
“De que serve ser criança, se mais tarde, em férias
nenhum barco te leva à ilha Kirrin?”
Talvez já suspeitava que os livros
podiam ser relógio ou calendário
exacto e enigmático do corpo.

Aurora Luque
(mais uma tradução caseira da lebre)

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Monday, March 6, 2006

mais uma traduçao caseira da minha Sexton


Estou no ringue
na cidade morta
e aperto os sapatos vermelhos.
Tudo o que estava calmo
é meu, o relógio com uma formiga a andar
os dedos dos pés alinhados como cães,
o fogão muito antes de ferver sapos,
a sala branca no inverno, muito antes das moscas,
a corça deitada no musgo muito antes da bala.
Eu aperto os sapatos vermelhos

Não são meus.
São da minha mãe.
E da mãe dela antes.
Entregues como relíquia familiar
mas escondidos como cartas vergonhosas.
A casa e a rua onde eles pertencem
estão escondidas e todas as mulheres, também,
estão escondidas

Todas as raparigas
que usaram sapatos vermelhos
cada uma embarcou um comboio que não pararia.
Estações voaram como pretendentes e não parariam.
Todas dançavam como truta num anzol.
Brincaram com elas.
Rasgaram as orelhas como alfinetes de segurança.
Os seus braços caíram e transformaram-se em chapéus.
As suas cabeças rolaram e cantaram pelas ruas.
E os seus pés - ó Deus, os seus pés no mercado -
os seus pés, aqueles dois escaravelhos, correram para a esquina.
Com certeza, exclamaram as pessoas,
com certeza que são mecânicos. Senão…

Mas os pés continuaram.
Os pés não conseguiam parar.
Estavam enroscados como uma cobra que vos vê.
Eram elásticos a puxar-se em dois.
Eram ilhas durante um terramoto.
Eram barcos a chocar e a afundar-se.
Eu e tu não importávamos.
Eles não podiam ouvir.
Eles não conseguiam parar.
O que eles fizeram era a dança da morte.

O que eles fizeram torná-los-ia.


Anne Sexton

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Wednesday, February 22, 2006

mais uma traduçao caseira da minha Sexton


"Gostas de mim?"
Perguntei ao blazer azul.
Sem resposta.
O silêncio saiu ruidosamente dos seus livros.
O silêncio caiu da sua língua
e sentou-se entre nós.
e obstruiu a minha garganta.
E trucidou a minha confiança.
Despedaçou cigarros para fora da minha boca.
Trocámos palavras cegas,
e eu não chorei,
e eu não implorei,
mas a escuridão encheu os meus ouvidos,
a escuridão atacou o meu coração,
e algo que tinha sido bom,
uma espécie de oxigénio bondoso,
Transformou-se em gás de forno.

"Gostas de mim?"
Que absurdo!
Que raio de pergunta é essa?
Que raio de silencio é esse?
E porque é que eu ando a rondar,
intrigada com o que é que o silêncio dele disse?


Anne Sexton


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Monday, February 20, 2006

Eis que volta a minha Pizarnik, em modo tradução caseira


Procurar
Não é um verbo, mas sim uma vertigem.
Não indica acção. Não quer dizer ir ao encontro de alguém mas sim jazer porque alguém não vem

Alejandra Pizarnik



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