Friday, November 11, 2005

mais uma traduçao caseira da lebre

um buraco na noite
subitamente invadido por um anjo


Alejandra Pizarnik



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Thursday, November 3, 2005

mais uma tradução caseira da lebre

Os lençóis foram lavados
da nossa essência conjunta – um composto,
não uma mistura; mas aqui ainda estão

esquecidos, o teu cachimbo e tabaco,
os teus livros abertos na minha mesa,
a tua voz a falar nos meus poemas.

Fleur Adcock


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Monday, October 31, 2005

Mais uma tradução caseira da lebre


Bonecas,
aos milhares,
estão a cair do céu
e eu olho para cima com medo
e pergunto-me quem as irá apanhar?
As folhas, segurando-as como pratos verdes?
Os charcos, abertos como copos de vinho
para as beber?
Os topos dos edifícios para se esmagarem nas suas barrigas
e deixa-las ali para ganhar fuligem?
As auto-estradas com as suas peles duras
para que sejam atropeladas como almiscareiros?
Os mares, à procura de algo que choque os peixes?
As cercas eléctricas para lhes queimar os cabelos?
Os campos de milho onde podem estar sem ser colhidas?
Os parques nacionais onde séculos mais tarde
Serão encontradas petrificadas como bebés de pedra?

Eu abro os braços
e apanho
uma,
duas,
três…dez ao todo
a correr para a frente e para trás como um jogador de badmington,
apanhando as bonecas, os bebés onde eu pratico,
mas outras estilhaçam-se no telhado
e eu sonho, acordada, eu sonho com bonecas a cair.
que precisam de berços e cobertores e pijamas,
com pés verdadeiros
Porque é que não há uma mãe?
Porque é que estas bonecas todas estão a cair do céu?
Houve um pai?
Ou os planetas cortaram buracos nas suas redes
e deixaram a nossa infância sair,
ou somos nós as próprias bonecas,
nascidas mas nunca alimentadas.


Anne Sexton



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Thursday, September 29, 2005

outono
mais uma tradução caseira da lebre


As folhas nunca sabem
qual folha será a primeira a cair.
Será que o vento sabe?


Soseki Natsume


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Tuesday, September 27, 2005

Hoje recebi prenda linda (o “The Complete Poems ” da Anne Sexton) de um grande grande amigo
Aqui fica uma tradução “caseira” de um poema fantástico dela


Sou o único actor.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça inteira.
A peça é a minha vida,
o meu acto único.
O meu correr atrás das mãos
e nunca as apanhar
(as mãos não se vêem -
ou seja, estão nos bastidores)
Tudo o que faço em cena é correr,
correr para acompanhar
mas sem o conseguir.
-
De repente paro de correr.
(isto avança um bocado com o enredo)
Faço discursos, centenas,
todos orações, todos solilóquios.
Digo coisas absurdas como:
ovos não podem discutir com pedras,
ou, mantenham os vossos braços partidos dentro das mangas,
ou, estou aqui de pé mas a minha sombra está torta.
E tal e tal.
Muitos buhs. Muitos buhs.


Apesar disso eu continuo para as ultimas deixas:
Estar sem Deus é ser uma cobra
que quer engolir um elefante.
A cortina cai.
A assistência apressa-se a sair
foi uma má interpretação.
Porque sou o único actor
e há poucos humanos cujas vidas
farão uma peça interessante,
não concordam?

Anne Sexton



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Monday, September 5, 2005

traduçao caseira da lebre


Olha, uma borboleta. Pediste um desejo?
Não se pedem desejos a borboletas.
Claro que pedem. Pediste um?
Sim.
Não conta.


Louise Gluck


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Tuesday, August 23, 2005

tradução caseira da lebre

Deste-me a intempérie,
a leve sombra da tua mão
a passar pela minha cara.
Deste-me o frio, a distancia,
o café amargo da meia-noite
entre mesas vazias.


Julio Cortázar



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