Sunday, February 13, 2005


A lebre está muito contente, afinal sempre vai ter o festival de blues em Coimbra

Os blues
Os blues servem
Os blues servem para cantar as noites solitárias
Os blues servem para cantar as minhas noites solitárias


Os blues
Os blues não são nada
Os blues não são nada mais que um canto
Os blues não são nada mais que um canto para gritar nas minhas noites solitárias
Os blues são uma estrela que brilha todas as noites para não se apagar depois até que volte a noite

Os blues são uma estrela que brilha
Os blues são uma estrela
Os blues sao
Os blues

Os blues são uma oração que cantam os negros e alguns brancos
para pedir que a noite não seja tão negra
Os blues são uma oração que cantam os negros e alguns brancos para pedir
Os blues são uma oração que cantam os homens
Os blues são uma oração
Os blues são
Os blues


JOAQUIM HORTA I MASSANÉS
tradução caseira da lebre

Thursday, February 10, 2005


Li este poema num livro da Margaret Atwood, não descansei enquanto não o traduzi, foi a maneira mais simples de me tentar ver livre da bofetada que ficou colada na cara

I

Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo
retorcido, são as nossas escolhas
que as tornam criminosas.

II

Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas

III

Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada
assim. Se eu te amo

é isso um facto ou uma arma?

O corpo mente
ao mover-se assim, são estes
toques, cabelos, o mármore
macio e húmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade

Apenas
está aqui ou não está.


Margaret Atwood


Monday, November 8, 2004

mais uma tradução caseira



A fúria dos pores-do-sol



Algo

frio está no ar,

uma aura de gelo

e apatia

Todo o dia construí

uma vida inteira e agora

o sol afunda-se para

a desfazer.

O horizonte sangra

e chupa o seu polegar

o pequeno polegar vermelho

desaparece.

E eu interrogo-me sobre

esta vida inteira comigo,

este sonho que estou a viver.

E podia comer o céu

como uma maçã

mas prefiro

perguntar à primeira estrela:

porque estou aqui?

porque vivo nesta casa?

quem é o responsável?

hã?



Anne Sexton





Sunday, October 31, 2004



Mais uma tradução caseira, desta vez da minha Plá





Ao descascar a palavra esperança encontrei polpa de maçã

e caroço de pedra.



Ao descascar a palavra amor achei pele de pêssego

e carne de cinza.



Ao descascar a palavra verdade, encheu as minhas mãos

e ao chegar à minha boca não existia





Josefina Plá







Mais uma tradução caseira, desta vez da minha Plá





Ao descascar a palavra esperança encontrei polpa de maçã

e caroço de pedra.



Ao descascar a palavra amor achei pele de pêssego

e carne de cinza.



Ao descascar a palavra verdade, encheu as minhas mãos

e ao chegar à minha boca não existia





Josefina Plá





Wednesday, September 29, 2004



mais uma tradução caseira da minha Pizarnik





explicar com palavras deste mundo

que partiu de mim um barco levando-me





Alejandra Pizarnik









mais uma tradução caseira da minha Pizarnik





explicar com palavras deste mundo

que partiu de mim um barco levando-me





Alejandra Pizarnik