Tuesday, February 10, 2009

tradução caseira da lebre


Memória iluminada. Galeria onde flutua
a sombra do que espero. Não é verdade
que virá. Não é verdade que não virá!





Alejandra Pizarnik




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Wednesday, January 28, 2009

tradução caseira da lebre




Estava abraçada ao chão. Acreditei que tinha morrido e que a morte era dizer um nome sem parar.




Alejandra Pizarnik




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Thursday, December 11, 2008

tradução caseira da lebre


ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o destino feroz
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe




Alejandra Pizarnik




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Thursday, November 27, 2008

tradução caseira da lebre



estes olhos
apenas se abrem
para avaliar ausências





Alejandra Pizarnik



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Monday, October 27, 2008

tradução caseira da lebre



a vida brinca na praça
com o ser que nunca fui

e aqui estou

dança pensamento
na corda do meu sorriso

e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela

vida aqui estou

a minha vida
o meu sangue só e hirto
fere no mundo

mas quero saber-me viva
mas não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos



Alejandra Pizarnik



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Monday, October 6, 2008

tradução caseira da lebre


O que é a realidade?
Sou uma boneca de gesso, eu poso
com olhos que abrem sem horizonte ou anoitecer
para pessoas envernizadas a sorrir,
olhos que abrem e fecham, azuis aço.
Sou uma espécie de transplante de I . Magnin?
Tenho cabelo, anjo preto,
recheio de anjo-preto para pentear,
pernas de nylon, braços luminosos
e algumas roupas dos anúncios.

Vivo numa casa de bonecas
com quatro cadeiras,
uma mesa de imitação, um telhado plano
e uma grande porta de entrada.
Muitos chegaram a esta encruzilhada tão pequena.
Há uma cama de ferro,
(a vida alarga, a vida faz pontaria)
um chão de cartão,
janelas que se escancaram para a cidade de alguém,
e pouco mais.

Alguém brinca comigo,
planta-me numa cozinha toda eléctrica
Foi isto que a Sra. Rombauer disse?
Alguém finge comigo -
estou emparedada em sólido pelo seu barulho -
uu põem-me em cima da sua cama arrumada.
Eles acham que eu sou eu!
O calor deles? O calor deles não é um amigo!
Eles forçam a minha boca para os seus copos de gin
e para o seu pão rançoso.

O que é a realidade
para esta boneca sintética
que devia sorrir, que devia meter as mudanças
que devia escancarar as portas numa desordem sadia
sem evidencias de ruínas ou medos?
Mas eu choraria
enraizada na parede que
em tempos já foi minha mãe
se me lembrasse como
e se eu tivesse lágrimas.



Anne Sexton



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Sunday, October 5, 2008

tradução caseira da lebre


Isto foi um erro,
estes braços e pernas
que já não funcionam

agora está partido
sem espaço para desculpas.

A terra não conforta,
Apenas cobre
Se tiveres a decência de ficar quieto

O sol não perdoa,
Olha e continua a andar.

A noite infiltra-se em nós
através dos acidentes que
provocámos um ao outro

da próxima vez que cometermos
amor, devemos
escolher primeiro o que matar.



Margaret Atwood



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Wednesday, October 1, 2008

tradução caseira da lebre



As minhas palavras exigem silêncio e espaços abandonados



Alejandra Pizarnik



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Monday, September 1, 2008

tradução caseira da lebre


Falo como em mim se fala. Não a minha voz destinada a parecer uma voz humana mas sim a outra que testemunha que não deixei de morar no bosque.



Alejandra Pizarnik



Monday, July 7, 2008

tradução caseira da lebre

Mais nenhuma foto

Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes. Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico. Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas. Eu sofro da minha própria multiplicidade. Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco. Isso teria permitido uma ideia firme. Isto é ela. Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer. Ou, não bem demais: a mais.



Margaret Atwood



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Wednesday, July 2, 2008

tradução caseira da lebre


O coração morto


Não é uma tartaruga
Escondida na sua pequenina carapaça verde.
Não é uma pedra para pegar
e por debaixo da tua asa preta.
Não é uma carruagem antiquada de metro.
Não é um pedaço de carvão que tu podes acender.
É um coração morto.
Está dentro de mim.
É um estranho
mas já foi afável,
abrindo e fechando como uma amêijoa

O que me custou, tu não podes imaginar
psis, padres, amantes, filhos, maridos,
amigos e tudo o resto.
O quão caro que foi continuar.
Também devolveu
Não o negues.
Quase que me pergunto se Abril o poderia devolver à vida
Uma tulipa? O primeiro botão?
Mas esses são apenas devaneios meus
a pena que se tem apenas quando se olha para um cadáver.

Como é que ele morreu?
Chamei-lhe MALVADO
disse-lhe, os teus poemas tresandam como vómito.
Não fiquei para ouvir a última frase.
Morreu na palavra MALVADO.
Eu fiz isso com a minha língua.
A língua, dizem os chineses
é como uma faca afiada
mata sem derramar sangue.




Anne Sexton



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Wednesday, May 28, 2008

tradução caseira da lebre

Triste quando desejo e quando não. Triste quando com um corpo e quando não. Triste quando com o seu sorriso e quando não.



Alejandra Pizarnik



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Thursday, May 8, 2008

tradução caseira da lebre


E nada será teu senão um ir até onde não há onde.



Alejandra Pizarnik



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Monday, April 21, 2008

tradução caseira da lebre


eu uno-me ao silêncio
eu uni-me ao silêncio
e eu deixo-me fazer
deixo-me beber
deixo-me dizer




Alejandra Pizarnik




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obrigada martinha

Monday, April 14, 2008

tradução caseira da lebre


(...)
Sou rainha de todos os meus
pecados esquecidos. Ainda estou perdida?
Em tempos fui bonita. Agora sou eu própria



Anne Sexton



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Thursday, April 10, 2008

tradução caseira da lebre



ela tem medo de não saber nomear o que não existe



alejandra pizarnik



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Tuesday, April 1, 2008

tradução caseira da lebre


ser sonhadora na sua camisa azul
que ama a terra estranha
ou atrever-me como a naufraga
que volta ao mar
porque ninguém se alegra
com a sua salvação



Alejandra Pizarnik



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Tuesday, March 25, 2008

tradução caseira da lebre


Aqui tudo é amarelo e verde.
Ouçam a sua garganta e a sua pele de terra,
a voz completamente seca dos pimentos
enquanto eles palpitam como anúncios.
Os pequenos animais do bosque
estão a levar as suas máscaras funerárias
para uma estreita caverna de Inverno.
O espantalho arrancou
os seus dois olhos como diamantes
e caminhou para a aldeia.
O general e o carteiro
tiraram as suas mochilas.
Tudo isto já aconteceu antes
mas nada aqui é obsoleto.
Tudo aqui é possível.

Por causa disto talvez uma jovem rapariga tenha despido
as suas roupas de Inverno e sentou-se
ao acaso num ramo de árvore
que está por cima de um lago no rio.
Ela foi vertida para o ramo,
rente à casa dos peixes
enquanto eles nadam para dentro e para fora do seu reflexo
e para cima e para baixo das escadas das suas pernas.
O seu corpo leva as nuvens até casa.
Ela está a olhar para a sua cara feita de água
no rio onde os homens cegos
vêm tomar banho ao meio dia .

Por causa disto
o chão, esse pesadelo de Inverno
curou as suas chagas e rebentou
com pássaros verdes e vitaminas.
Por causa disto
as arvores entregam as suas valas
e seguram pequenas chávenas de chuva
com os seus dedos esguios.
Por causa disto
uma mulher está ao pé do seu fogão
a cantar e a cozinhar flores.
Tudo aqui é amarelo e verde.

Com certeza que a Primavera vai permitir
que uma rapariga nua
se vire suavemente na sua luz solar
e não tenha medo da sua cama.
Ela já contou seis
flores no seu espelho verde verde.
Dois rios fundem-se debaixo dela.
A cara da criança enruga-se
na água e desaparece para sempre.
A mulher é tudo o que pode ser visto
na sua beleza animal.
A sua pele acarinhada e obstinada
permanece profundamente debaixo da árvore feita de água.
Tudo aqui é completamente possível
e os homens cegos também podem ver.



Anne Sexton



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Monday, March 24, 2008

tradução caseira da lebre


faço a minha cabeça, como costumava
de um saco de papel,
puxo-o até ao colarinho

desenho olhos à volta dos meus olhos
com picos roxos e verdes
para mostrar surpresa,
um nariz com forma de polegar

uma boca à volta da minha boca
esboçada pelo toque, e depois colorida
a vermelho mortiço.

com esta cabeça nova, o corpo
esticado como uma meia e exausto
poderia dançar outra vez; e se eu fizesse
uma língua, eu poderia cantar

um lençol velho e é Halloween;
mas porque é que pior ou mais assustadora
esta cara de cabeça de alfinete
de cabelo quadrado e sem queixo?

como um idiota, não tem passado
e está sempre a entrar no futuro
através das frestas de olhos, miope
e às apalpadelas com o seu grande sorriso,
um tentáculo de eterna felicidade

cabeça de papel, prefiro-te
por causa do teu vazio;
de dentro de ti qualquer
palavra ainda pode ser dita.

contigo eu poderia ter
mais do que uma pele,
um interior em branco, um reportório
de histórias por contar.
Um novo começo.


Margaret Atwood



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Thursday, March 6, 2008

diz que não sabe do medo da morte do amor
diz que tem medo da morte do amor
diz que o amor é morte é medo
diz que a morte é medo é amor
diz que não sabe



Alejandra Pizarnik



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